6
Interpretao de dados
At essa etapa de pesquisa, o pesquisador, na busca de respostas  sua questo, coletou e organizou os 
dados. A anlise de dados permitiu a organizao e o estabelecimento de relaes entre eles, faltando, ainda, 
explic-los, dar-lhes um significado, o(s) porqu(s) de sua ocorrncia. 
 natural que durante a anlise (e at mesmo no momento de 
elaborar o problema) o pesquisador j imagine urna srie de possveis explicaes (hipteses) para os dados 
que vai encontrando. 
No entanto,  somente aps o trmino da anlise de dados que 
ele o faz completamente, de maneira cautelosa e exaustiva. 
Interpretar dados  fazer inferncias a partir das relaes estudadas, buscando seu significado e implicaes 
(Kerlinger, 1975). E 
inferir  partir de premissas, at chegar a extrair concluses. 
Analisando o processo de pesquisa macroscopicamente, consta tamos que uma das premissas do pesquisador 
provm dos dados que coleta (as outras provm das suposies que faz) e as concluse provm das 
interpretaes. Assim, a dinmica da interpretao d dados est em relacionar as vrias premissas (seja da 
prpria pes quisa ou de outras) e, a partir delas, extrair concluses. 
Uma das maneiras de se interpretar os dados de uma pesquis  relacionando os dados nela obtidos. E, neste 
sentido, anlise interpretao de dados se confundem.  medida que se analisa, r lacionando variveis, se 
interpreta. Relacionar os dados de du2 figuras, por exemplo, j indica a suposio de que os fenmen esto, 
provavelmente, relacionados. 
Veja na figura 6. 1 o exemplo que relaciona mortalidade ii 
fantil no decorrer dos anos e o salrio mnimo real no mesmo pi 
rodo. 
48 
Apresentar estes dados juntos indica que se acredita ser o nvel scio-econmico um dos determinantes da 
mortalidade infantil. 
Este  considerado o uso mais restrito do termo interpretao (Kerlinger, 1975). 
A segunda maneira de interpretar dados envolve fazer relaes com dados de outras pesquisas, e com teorias, 
dando-lhes um significado mais amplo, mais abrangente. 
Vejamos um exemplo. Macedo (1972) realizou uma pesquisa para verificar a eficcia de um procedimento para a 
aquisio da noo de conservao 1 em alunos do pr-primrio. No momento em que foi interpretar os 
resultados obtidos, ele o fez de duas maneiras: a) relacionando os resultados com os objetivos propostos e 
com o planejamento adotado (1.0 tipo de interpretao) e b) com o ponto de vista de Piaget sobre o modo como 
se d a aquisio da noo de conservao (2. tipo de interpretao). 
Um trecho de seu estudo ilustra esse segundo tipo de interpretao: 
(...) De outro lado, se conceitos de nmero, quantidade, comprimento, peso etc. so importantes do ponto de 
vista educacional, se a ausncia de conservao constitui um impedimento, como Piaget o demonstrou, a uma 
aquisio adequada desses conceitos (no sentido de que, por exemplo, para um sujeito no conservador a 
correspondncia biunvoca entre dois conjuntos deixa de existir quando se altera o arranjo espacial dos 
elementos de um dos conjuntos),  fundamental que se desenvolvam procedimentos eficazes de treino para 
apress-la, ainda que por seis meses, o que pode representar um ganho muito grande para um professor 
primrio, por exemplo (Macedo, 1972, p. 158). 
Quando se analisa o grau de abrangncia de uma interpretao, vamos encontrar os dois tipos de interpretao 
anteriormente apresentados: um mais restrito, e outro mais amplo, relacionando dados de outras pesquisas. 
Quando se analisa o tipo de raciocnio envolvido em uma interpretao de dados, vamos encontrar tambm 
mais de uma maneira de se interpretar, de se explicar os dados. 2 Entendendo a explicao como 
estabelecimento de relao entre afirmaes, veremos que no h apenas uma maneira 4e telacionar tais 
informaes. Existem, basicamente, explicaes do tipo dedutivo e indutivo (Hempel, 1967; Azanha, 1958). 
6. 1. Explicaes dedutivas 
No processo de raciocnio dedutivo, a primeira premissa ou afirmao que o pesquisador elabora  de natureza 
terica e no 
1 Conceito de Piaget que se refere a uma ao interiorizada da criana, 
onde ela mantm a noo do todo de um objeto, independentemente do 
arranjo de suas partes (Chiarottino, 1972). 
2 Interpretao e explicao so dos aqui como sinnimos. 
50 S 
emprica. E aqui  necessrio esclarecer o sentido do termo terico e emprico. 
A nosso ver, todo o conhecimento produzido em cincia que  transmitido atravs da linguagem oral e escrita 
se situa ao longo de um continuum terico-emprico: tudo aquilo que  dito ou escrito ora se aproxima do 
concreto, do observvel, ora se aproxima do no observvel, ou observvel indiretamente  o terico.  difcil 
dizer, em algumas circunstncias, que algo ou  completamente observvel ou  completamente terico. Por 
isso, cabe a idia de um continuum, que se ope  idia de uma dicotomia. Veja a figura 6.2. 
Continuom tericoemp Irico 
Figura 6.2. 
-1 
Dicotomia terica-emp(rica 
Assim, a linguagem da cincia e a linguagem da pesquisa, relatando os dados coletados e as interpretaes 
sobre os mesmos, se expressam ao longo desse continuum e no so dicotmicas. 
Um exemplo de linguagem predominantemente terica pode ser encontrado nos trabalhos de Jung (apud 
Silveira, 1975) sobre arqutipos. Este conceito, por ser definido como predisposies herdadas, jamais 
poder ser observado diretamente, pois no se conhecem meios de se observar os mecanismos genticos de 
predisposies. 
Entretanto, a teoria de Jung apresenta variaes  nem sempre  predominantemente terica. Quando ele 
aborda o tema emoo, levanta hipteses diretamente verificveis sobre, por exemplo, variaes na presso 
galvnica da pele (Jung, 1972). 
O processo de pesquisa se inicia, como vimos, pela colocao do problema, seguida pela previso de anlise, 
onde o pesquisador levanta hipteses sobre as possveis relaes que respondero ao problema de pesquisa 
(reveja essa etapa na p. 18). Essas hipteses podero ser de natureza terica ou emprica. Se forem de natureza 
eminentemente terica, ou seja, cujos conceitos e afirmaes no so verificveis diretamente, ento ela 
poder elaborar outras hipteses, derivadas dessas, e que sejam verificveis diretamente, e coletar dados que 
as confirmem ou refutem. 
3 Definido por Jung (apud Marx e Hillix, 1974) como predisposies herdadas para perceber ou atuar de uma 
certa maneira. 
51 
Na etapa de interpretao de dados ele dever explicar esses dados coletados, e se reportar  sua hiptese 
inicial (aquela, no caso, no verificvel diretamente). Diz-se, ento, que ele realizou um processo de raciocnio 
dedutivo: de determinadas hipteses derivaram outras, que so colocadas  prova, realizando um processo 
indireto de verificao. 
Embora seja raro encontrar um processo de explicao unicamente dedutivo,  possvel identific-lo em 
algumas explicaes em Psicologia. 
Azanha (1958) fornece a Gestalt como exemplo: os autores desse sistema em Psicologia tinham como hiptese 
a de que havia uma percepo gestltica. Os indivduos percebem o todo das formas primeiramente e s 
depois suas partes. Dessa hiptese sobre a existncia de um fenmeno mental denominado percepo 
gestltica, no observvel diretamente, derivaram uma srie de situaes-teste (apresentadas a seguir), 
onde colocavam a prova outras hipteses sobre percepes especficas. 
Similaridade. Sendo as outras condies iguais, os elementos semelhantes tendem a ser vistos como 
pertencentes  mesma estrutura, como na figura 6.3. 
Figura 6.3. 
QOOcCO 
Proximidade. Os elementos prximos no tempo ou no espao tendem a ser percebidos juntos. Por exemplo, as linhas na 
figura abaixo tendem a ser vistas como trs pares de linhas, mais do que de qualquer outra maneira. 
Figura 6.4. 
Assim, se uma pesquisa for realizada com o objetivo de verificar a existncia da percepo gestltica, o processo como 
um todo  da colocao do problema e hipteses iniciais  interpretao de dados  se caracterizar como dedutivo tal 
como apresen tad 
acima. No entanto, no  to simples assim identificarmos um processo dedutivo puro. Durante o processo lgico de 
deduo h a elaborao de muitos conceitos e definies, ora tericos, ora empricos. Segundo Kessen e Mandier (1964) 
poucos so os conhecimentos atuais, se  que existe algum, que se restrinjam a apenas um tipo de explicao. 
6.2. Explicaes indutivas 
Muitas vezes, diante de um problema de pesquisa, o cientista levanta hipteses diretamente verificveis, no derivadas de 
um processo de raciocnio dedutivo como o que foi apresentado anteriormente. Ele as coloca  prova, coletando dados a 
respeito, e no momento de interpretar esses dados, de explic-los, pode sugerir hipteses mais complexas, no verificveis 
diretamente. 
A esse processo de explicao, inverso ao anterior, d-se o nome de indutivo. 
Embora sempre tenhamos que levar em conta a raridade de pesquisas que interpretem dados segundo um ou outro modo de 
raciocnio, podemos encontrar nas pesquisas hehaviorftas (coerentes com os pensamentos de B. F. Skinner) claras 
ilustraes do tipo indutivo de explicao. Nessas pesquisas, os autores partem da hiptese, por exemplo, de que o 
comportamento recebe influncias dos eventos do ambiente e procedem, ento,  coleta de dados que comprovem 
diretamente essa hiptese. Os prprios ttulos das pesquisas j sugerem, em sua maioria, a hiptese que estar sendo 
testada. Veja alguns exemplos: 
O efeito da presena e desempenho de um organismo no desempenho de um outro (Medeiros, 1977). 
Questes de estudo: uma condio para instalar discriminao de aspectos importantes de um texto (Botom, 1979). 
Autocontrole  Manipulao de condies antecedentes e conseqentes do comportamento alimentar (Kerbauy, 1972). 
No momento em que o pesquisador interpretar os resultados do teste dessas hipteses, poder, ou no, elaborar outras 
hipteses, mais amplas, mais complexas e no verificveis diretamente. 
Para alguns autores, o que caracteriza um processo indutivo de explicao  o acmulo de informaes sobre relaes 
estritamente empricas, com um mnimo de comprometimento com inferncias, com extrapolaes alm dos dados. Nesse 
senido, uma pesquisa indutivamente elaborada no incluiria na etapa de interpretao de 
52 
53 
dados, por definio, hipteses no verificveis diretamente, ou seja hipteses de natureza terica (Kessen e Mandier, 
1974). No entanto,  raro encontrar tal rigor na pesquisa psicolgica: o mero estabele cimento de relaes entre dois ou 
mais conceitos observveis (tai como os conceitos de estmulo e resposta do behaviorismo) j implica uma 
extrapolao, uma inferncia, e, portanto, no esta belecimento de eventos de natureza terica e no verificvel direta mente 
na etapa de interpretao de dados. 
Sendo assim, independente do tipo de explicao elaborad: 
(dedutiva ou indutiva), sempre encontraremos na etapa de Interpre tao de Dados o que vai alm dos dados, o que se 
distancia dc emprico e se aproxima do terico, no complexo continuum da lin guagem (visto anteriormente). 
Para que voc possa diferenciar a linguagem de uma interpre 
tao de dados daquela que descreve os mesmos, apresentamos, 
seguir, um trecho que ilustra essa diferena. 
.) Em 1966 havia 10% das crianas de 7 a 14 anos fora da escol e em 1971 tal proporo subia para 20% (. . 
Os excludos da escola, em grande parte dos casos, so crianas e joves que precocemente precisam procurar trabalho: 9,4% 
dos meninos de 10 a 1 anos que vivem na Grande So Paulo trabalham, proporo que para 
meninas  de 7,7%. 
Esses dados poderiam ser interpretados da seguinte maneira: 
Trabalhar prematuramente significa duplo fator de marginalizao: un socializao deficiente (por insuficincia de 
conhecimentos bsicos de cart instrumental) e uma ocupao que apresenta limites bastante estreitos quan  viabilidade 
de capacitao profissional. Efetivamente, o trabalho ofereck a menores, em regra geral, no exige alto grau de conhecimento 
e habi1 dade (. . .) No  preciso formao para executar tais rotinas de trabalh Nem tais rotinas levam a uma formao 
profissional que poderia., no futur permitir o acesso a situaes mais compensadoras. 
Assim, v-se que ambos os trechos diferem quanto ao co tinuum terico-emprico visto na pgina 51: o primeiro trecho n 
fere-se aos dados, ao emprico, e o segundo reporta-se ao significac atribudo a este emirico. Fornecer este significado  a 
princip funo da etapa de Interpretao de Dados. 
Resta, porm, comunicar essas concluses ao mundo da cinci 
Faz-se isto atravs de um relatrio de pesquisa. Vamos a ele. 
54 
